O que Estocolmo ensina sobre inovação
Um episódio do século XVII ajuda a entender a vocação inovadora da Suécia.

Um episódio do século XVII ajuda a entender a vocação inovadora da Suécia. Com 69 metros de comprimento e equipado com 64 canhões, o Vasa era um símbolo de poder e pretendia estabelecer o país como potência europeia. No entanto, o navio afundou poucos minutos após zarpar de uma das ilhas de Estocolmo. O que seria um marco de inovação tornou-se um enorme fracasso - que escancarou erros de projeto e de falta de validação.
O resgate do Vasa após 333 anos mobilizou engenharia de ponta e esforço rigoroso de preservação. O navio é uma peça histórica que mantém 98% de sua estrutura original intacta e está no Vasamuseet, museu inaugurado em 1990 para contar essa história. É essa relação entre tradição, aprendizado e tecnologia de ponta que orienta a KES TREK Stockholm, imersão a um dos principais hubs de inovação do mundo - um ambiente que não descarta seus erros, mas os incorpora para evoluir.

A capital sueca tornou-se uma das maiores “fábricas de unicórnios” do mundo. Sua densidade de startups bilionárias por habitante é uma das mais altas do planeta. Na nossa jornada, vamos entender o que faz desse ecossistema tão promissor, a ponto de ser reduto de empresas que impactaram o comportamento global: Spotify, Skype, Minecraft - e mais recentemente a Lovable, plataforma de “vibe coding” com suas soluções em IA rapidamente adotadas por diversas empresas.
Na Suécia também se originaram empresas incumbentes como Electrolux, Volvo, Ericsson e IKEA. Sua vocação inovadora acontece justamente na intersecção entre empresas globais consolidadas que se mantêm relevantes, com iniciativas que nascem no atual contexto de mundo, nativas digitais ou IA driven.
Fatores que impulsionam a inovação
A Suécia ocupa o 2º lugar no Índice Global de Inovação, refletindo um modelo que combina educação de excelência, colaboração público-privada e uma cultura empresarial de excelência. A região de Estocolmo responde por mais de um terço do PIB do país.
Um país pequeno, com mercado interno limitado, tem mentalidade global. Empresas já nascem pensadas para escalar internacionalmente. Ao mesmo tempo, a forte rede de proteção social reduz o custo do fracasso e aumenta a disposição para inovar, sem medo de testar e experimentar.
Esse ambiente tem como pilares a educação e pesquisa de excelência, com instituições como o Karolinska Institutet, o KTH Royal Institute of Technology e a Stockholm School of Economics (SSE) e o SSE Business Lab, reconhecido como um dos hubs de empreendedorismo mais influentes da Europa.

O que se vê na prática é uma combinação de inovação, colaboração entre setores e uma agenda consistente de longo prazo. A inovação acontece com a participação ativa do governo, inclusive com um conselho nacional de inovação, empresas e a academia.
Equilíbrio ideal e acesso à natureza
Estocolmo também é referência em cidade inteligente, com eletrificação do transporte para eliminar combustíveis fósseis, em sustentabilidade e biotecnologia. Dois conceitos suecos ajudam a traduzir algumas características culturais como moderação, respeito e bem-estar sustentável.

Lagom é uma filosofia de equilíbrio ideal, “nem muito pouco, nem demais, apenas o suficiente”. O termo surgiu na era viking de “laget om” (divisão igual da bebida alcoólica milenar, o hidromel) e evoluiu para uma cultura de moderação em consumo e trabalho. No dia a dia, incentiva hábitos sustentáveis como reutilizar alimentos, um certo minimalismo e a busca por reduzir estresse, promovendo bem-estar coletivo e individual.
Já o termo Allemansrätten, ou “direito de acesso público à natureza”, permite que todos, suecos e visitantes, explorem livremente propriedades privadas, desde que preservem a natureza, sem perturbar. Garantido na Constituição de 1994, autoriza caminhadas, acampamentos temporários, colheita de frutas silvestres e fogueiras, mas proíbe danos a plantas, animais e descarte de lixo. Reflete a harmonia escandinava com o meio-ambiente.
Equilíbrio, respeito ao individual e ao coletivo, sustentabilidade, minimalismo, mentalidade global, disposição ao erro, excelência no conhecimento aplicado e agenda comum entre poder público, empresas e academia são algumas das características da vocação inovadora de Estocolmo.
Destino obrigatório para líderes que precisam ampliar seu repertório com referências, exemplos práticos, trocas entre pares de diferentes indústrias e conhecimento sobre como inovar, se manter relevante e impactar globalmente.
Mariana Castro
Head de Curadoria KES