A cilada das Soft Skills: a ilusão da humanidade programada
Em um momento em que fica clara a adoção cada vez mais rápida da Inteligência Artificial para funções antes estritamente humanas, é evidente que a busca pelo desenvolvimento daquilo que é exclusivamente humano se torna ainda mais urgente.

Já virou clichê falar que o grande diferencial profissional do atual momento virá das habilidades humanas, as famosas soft skills. Fato. No entanto, clichês não deixam de ser verdadeiros; todo ano, relatórios e painéis em eventos corporativos discorrem sobre os dados que reiteram essa realidade.
Em um momento em que fica clara a adoção cada vez mais rápida da Inteligência Artificial para funções antes estritamente humanas, é evidente que a busca pelo desenvolvimento daquilo que é exclusivamente humano se torna ainda mais urgente. Afinal, para além do assombro e até da ferida egóica que causa o domínio de nossas habilidades pela máquina, soma-se o medo real de nossa obsolescência no mercado de trabalho.
Fica clara a prioridade: desenvolver soft skills. Até aí tudo bem. Mas creio que a urgência e o como estamos fazendo isso tem criado uma "cilada".
Durante as últimas décadas o mindset dominante em instituições de todo o tipo, de empresas a escolas, foi aquele da Revolução Industrial: organização que imita a máquina, funções limitadas que servem a uma linha de produção e educação a partir de "saberes mutilados" em aulas de 50 minutos de temas que não se relacionam - o mais importante é a produtividade rápida e performance do que a compreensão do todo ou inovação constante.
O modelo de pensamento no qual estamos inseridos valoriza o que é da máquina, enquanto desvaloriza o que é do humano. Nesse contexto, matérias criativas são desmerecidas, a vulnerabilidade real é vista como sinal de fraqueza e a emotividade é constrangedora.
Eis a cilada: mesmo quando fica claro que aquilo que nos diferenciará é nossa habilidade de ser humano, tentamos desenvolvê-la de maneira maquínica.
Todo ano, as top soft skills são apresentadas em tabelas, medidas e niveladas, gerando trilhas de desenvolvimento. Mas como aprender a ser mais empático? Ou a ter pensamento crítico? Ou a melhor se relacionar?
Achar que existe um manual, um professor ou uma sala de aula que dará conta de desenvolver tais habilidades é uma ilusão de que a humanidade pode ser programada e ensinada por meio de dados.
Humanidade, seja para o bem ou para o mal, se aprende, por exemplo, em vivência, ou seja, cultura no sentido antropológico: nossos hábitos, crenças, comportamentos e rituais tão intrínsecos ao ambiente que são naturalizados.
Caso a premissa de que o desenvolvimento humano é prioridade seja verdadeira, é necessária uma mudança radical de mindset e de paradigma. A valorização daquilo que foi desvalorizado até agora e a clareza de que não teremos o mesmo controle sobre os KPIs de desenvolvimento, afinal, muitos deles serão intangíveis antes de se tornarem resultado.
É preciso estar disposto a investir em ações cujos resultados não podem nem ser contabilizados, mas sim sentidos. Ou seja, tudo que não cabe em uma tabela. Será que estamos preparados?
Laura Hauser
Curadora KES