23 JAN, 2026

A cilada das Soft Skills: a ilusão da humanidade programada

Em um momento em que fica clara a adoção cada vez mais rápida da Inteligência Artificial para funções antes estritamente humanas, é evidente que a busca pelo desenvolvimento daquilo que é exclusivamente humano se torna ainda mais urgente.

A cilada das Soft Skills

Já virou clichê falar que o grande diferencial profissional do atual momento virá das habilidades humanas, as famosas soft skills. Fato. No entanto, clichês não deixam de ser verdadeiros; todo ano, relatórios e painéis em eventos corporativos discorrem sobre os dados que reiteram essa realidade.

Em um momento em que fica clara a adoção cada vez mais rápida da Inteligência Artificial para funções antes estritamente humanas, é evidente que a busca pelo desenvolvimento daquilo que é exclusivamente humano se torna ainda mais urgente. Afinal, para além do assombro e até da ferida egóica que causa o domínio de nossas habilidades pela máquina, soma-se o medo real de nossa obsolescência no mercado de trabalho.

Fica clara a prioridade: desenvolver soft skills. Até aí tudo bem. Mas creio que a urgência e o como estamos fazendo isso tem criado uma "cilada".

Durante as últimas décadas o mindset dominante em instituições de todo o tipo, de empresas a escolas, foi aquele da Revolução Industrial: organização que imita a máquina, funções limitadas que servem a uma linha de produção e educação a partir de "saberes mutilados" em aulas de 50 minutos de temas que não se relacionam - o mais importante é a produtividade rápida e performance do que a compreensão do todo ou inovação constante.

O modelo de pensamento no qual estamos inseridos valoriza o que é da máquina, enquanto desvaloriza o que é do humano. Nesse contexto, matérias criativas são desmerecidas, a vulnerabilidade real é vista como sinal de fraqueza e a emotividade é constrangedora.

Eis a cilada: mesmo quando fica claro que aquilo que nos diferenciará é nossa habilidade de ser humano, tentamos desenvolvê-la de maneira maquínica.

Todo ano, as top soft skills são apresentadas em tabelas, medidas e niveladas, gerando trilhas de desenvolvimento. Mas como aprender a ser mais empático? Ou a ter pensamento crítico? Ou a melhor se relacionar?

Achar que existe um manual, um professor ou uma sala de aula que dará conta de desenvolver tais habilidades é uma ilusão de que a humanidade pode ser programada e ensinada por meio de dados.

Humanidade, seja para o bem ou para o mal, se aprende, por exemplo, em vivência, ou seja, cultura no sentido antropológico: nossos hábitos, crenças, comportamentos e rituais tão intrínsecos ao ambiente que são naturalizados.

Caso a premissa de que o desenvolvimento humano é prioridade seja verdadeira, é necessária uma mudança radical de mindset e de paradigma. A valorização daquilo que foi desvalorizado até agora e a clareza de que não teremos o mesmo controle sobre os KPIs de desenvolvimento, afinal, muitos deles serão intangíveis antes de se tornarem resultado.

É preciso estar disposto a investir em ações cujos resultados não podem nem ser contabilizados, mas sim sentidos. Ou seja, tudo que não cabe em uma tabela. Será que estamos preparados?

LH

Laura Hauser

Curadora KES