Voltar diferente depois de ver o futuro de perto
Foram 19 dias longe de casa, sendo 10 deles acompanhando 26 executivos e executivas em uma jornada por três cidades gigantes (Hong Kong, Shenzhen e Singapura), que hoje vivem cenários muito próximos daquelas cidades futuristas que os filmes mais utópicos costumam traçar.

Foram 19 dias longe de casa, sendo 10 deles acompanhando 26 executivos e executivas em uma jornada por três cidades gigantes (Hong Kong, Shenzhen e Singapura), que hoje vivem cenários muito próximos daquelas cidades futuristas que os filmes mais utópicos costumam traçar. Teve cultura, história e geopolítica nas visitas, além de conversas de alto impacto, parte de uma KES Trek extremamente customizada, inspiradora e inesquecível.
Hong Kong começou entregando uma sensação quase claustrofóbica. No primeiro dia rolou até um leve enjoo, talvez pelo hábito de andar olhando para cima, tentando achar o céu e percebendo que ele quase sempre estava riscado por algum prédio.
Tem prédios na montanha, na orla, prédios pequenos, médios e alguns dos arranha-céus mais altos do mundo, tudo espremido em uma faixa minúscula de terra, com algo entre 6 e 7 milhões de pessoas se movendo por cima, por baixo e por todos os lados. É uma cidade peculiar demais. E impressiona como, nos últimos anos, eles aprenderam a se adaptar à realidade de serem uma das cidades mais densas do planeta.
Se fosse para definir Hong Kong em uma palavra, seria harmonia. Uma engrenagem urbana extremamente complexa, mas bem ajustada, que consegue dar vazão a tudo e a todos, moradores e visitantes, sem entrar em colapso.

Durante a viagem, estávamos acompanhados do incrível Marcelo Gleiser, e uma comparação que ele fez ficou muito forte para mim. Ele colocou lado a lado a Grécia Antiga, Florença durante o Renascimento e o momento atual vivido pela China com suas megacidades. O ponto em comum não é apenas o fato de serem períodos de transformação profunda, que redefiniram suas épocas, mas também o ambiente intelectual e estrutural que se forma nesses momentos.
Na Grécia Antiga, as ágoras eram espaços de encontro, debate e construção coletiva de ideias. Em Florença, praças, catedrais e ateliês se tornaram centros de efervescência cultural, científica e artística, impulsionados por um projeto claro de futuro. Hoje, nas megacidades chinesas, vemos algo semelhante, só que em escala urbana e tecnológica: grandes centros, universidades, hubs de inovação e infraestruturas monumentais que funcionam como catalisadores de um novo modelo de sociedade. Não é apenas crescimento econômico, é a tentativa consciente de moldar o futuro.
Falando em futuro (palavra que repeti e vou repetir mais vezes neste texto)... Shenzhen entrega o futuro. Pode até parecer clichê dizer isso quando falamos de grandes cidades chinesas, mas quem ainda tem dificuldade de imaginar como será a sociedade do futuro precisa urgentemente ir para a China.
Quando eu era pequeno, lembro de pessoas bem arrumadas batendo na porta de casa, espalhando a palavra de Cristo e entregando aqueles panfletos que mostravam uma sociedade futura perfeita, cheia de luz, paz, uma criança abraçada a um tigre e alguns prédios espelhados ao fundo. Shenzhen é esse panfleto. Só que real. E com muitas câmeras espalhadas pela rua.
É uma cidade criada com o propósito explícito de ser um modelo de sociedade futura, quase um laboratório vivo para mostrar ao mundo como o socialismo chinês pode funcionar como projeto de país. Quando você junta isso com planejamento de longo prazo, capacidade de execução e disciplina coletiva, o resultado já está entregue.
Quantas vezes discutimos sobre o quanto vale compartilhar dados e abrir mão da "privacidade" que acreditamos ainda ter, em troca de viver em um lugar seguro, pensado para as pessoas, com parques, transporte público eficiente, caminhadas tranquilas, uma cidade verde e um conceito de sustentabilidade que vai muito além do discurso?
Na próxima viagem internacional que você estiver planejando, principalmente se for para uma grande cidade, vá à China. Maior parceiro comercial do Brasil e nós brasileiros sabemos muito pouco sobre o país. Sempre que o KES leva grupos para lá, especialmente pessoas que vão pela primeira vez, as perguntas revelam o quanto ainda carregamos preconceitos antigos, que deixaram de fazer sentido há mais de 20 anos.

E, por fim, Singapura. Como eu amo essa cidade! Fui pela primeira vez em 2019 e, a cada retorno, o encantamento só aumenta. A história do país é impressionante.
Lee Kuan Yew foi uma figura extremamente complexa. Teve visão de longo prazo, pulso firme e uma clareza rara sobre onde queria levar o país. Seus métodos foram duros, muitas vezes autoritários, e o custo social foi alto, com restrições severas à liberdade, controle rígido e decisões que custaram muito ao povo local. Ainda assim, foi exatamente essa combinação de disciplina, foco e planejamento que tirou Singapura de um passado marcado por pobreza extrema, ópio, contrabando e instabilidade e a transformou em uma das nações mais prósperas, seguras e eficientes do mundo.
Curiosamente, se você assistir a Piratas do Caribe, vai ouvir Singapura sendo citada como uma ilha caótica de piratas, brigas e bebedeiras. Difícil imaginar isso olhando para a cidade quase impecável que existe hoje.

Eu poderia ter voltado para o Brasil desanimado, comparando nossa realidade com a dessas três cidades, que também tiveram passados obscuros e hoje vivem momentos muito positivos em economia, segurança e organização social. Mas prefiro olhar de forma construtiva. Mesmo ter mencionado que toparia mudar para a China, não dá para trocar o Brasil por nada. A inspiração está em entender o que posso fazer aqui, dentro do meu contexto, para contribuir, nem que seja com pequenos fragmentos do que vi lá fora.
Acredito que o trabalho do KES contribui para isso. Levar lideranças de grandes empresas, que também têm um papel importante na construção social, a se inspirarem nesses modelos e a voltarem empolgadas para fazer diferente é algo que me gratifica muito. Pode parecer ingênuo para alguns, mas é um pensamento genuíno.
Fábio Amado
Sócio & Head de Experiências